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Dra. Alda Libardi

Conteúdo · Traduzindo a Menopausa

Traduzindo a Menopausa

Terapia hormonal na menopausa: o que a ciência diz hoje

O medo de que hormônio dê câncer tem uma origem, uma data e duas décadas de ciência depois dela. Esta é a história com calma.

Por Dra. Alda Libardi · CRM-ES 11295 • RQE 7207 6 min de leitura

Eu não lembro de uma semana de consultório em que a pergunta não tenha aparecido: hormônio dá câncer? Ela vem de mulheres que sofrem com os sintomas do climatério, que já leram sobre terapia hormonal na menopausa, e que carregam um medo que não é delas: é herdado. Ele tem uma origem, tem uma data, e a ciência caminhou muito desde então. Este texto é para contar essa história com calma.

Antes de tudo, um combinado: este artigo explica. Ele não indica nem contraindica nada para você. A decisão sobre terapia hormonal é individual e depende de uma avaliação médica que considere a sua história, os seus exames e o que você quer para a sua vida.

O que é a terapia hormonal na menopausa

No climatério, os ovários reduzem a produção de estrogênio e progesterona. A terapia hormonal consiste em oferecer ao corpo esses hormônios, ou versões deles, para tratar sintomas ligados a essa queda e, em algumas situações, para proteger a saúde a longo prazo.

Existem diferentes tipos de hormônio, diferentes vias de uso (comprimido, gel, adesivo, via vaginal) e diferentes esquemas. Isso importa porque, quando alguém fala em terapia hormonal como se fosse uma coisa só, está simplificando demais. As diferenças entre um esquema e outro mudam bastante o perfil de segurança.

De onde veio o medo

Em 2002, um grande estudo americano chamado Women’s Health Initiative, conhecido como WHI, teve uma parte interrompida antes do previsto. Os pesquisadores observaram, no grupo que usava uma combinação específica de hormônios, um aumento de alguns riscos, entre eles o de câncer de mama. A notícia correu o mundo, e milhões de mulheres deixaram de usar ou de considerar a terapia hormonal.

O que a manchete não contou é o contexto. As participantes daquele braço do estudo tinham, em média, uma idade bem acima da faixa em que a maioria das mulheres começa a terapia, muitas estavam anos depois da menopausa, e o esquema hormonal usado era um só, com hormônios que hoje não são a primeira escolha em muitos casos. O aumento de risco, em números absolutos, era pequeno, mas a forma como foi divulgado transformou um dado específico em uma regra geral.

O que a ciência diz hoje

Nas duas décadas seguintes, os dados do WHI foram reanalisados por idade, por tempo desde a menopausa e por tipo de hormônio, e muitos outros estudos foram publicados. O que se consolidou foi uma visão mais precisa: os riscos e os benefícios da terapia hormonal dependem de quem usa, de quando começa e de qual esquema é usado.

As principais sociedades médicas do mundo, como a The Menopause Society, e a brasileira Febrasgo publicam posicionamentos que resumem esse consenso. Em linhas gerais, eles apontam que, para mulheres com sintomas, sem contraindicações e que iniciam a terapia nos primeiros anos após a menopausa, os benefícios tendem a superar os riscos. E que, para outros perfis, a conta pode ser diferente.

Hormônio dá câncer? A resposta honesta é: depende de quem, de quando e de como. E é exatamente por isso que essa decisão não cabe em uma manchete.

Para quem pode ser considerada e para quem não

Não vou dar uma lista de sim e não, porque não existe uma. Mas posso contar o que um médico avalia quando a pergunta chega ao consultório.

  • Quais são os sintomas e o quanto eles afetam a sua vida.
  • Quanto tempo se passou desde a última menstruação e qual é a sua idade.
  • A sua história pessoal e familiar, especialmente de câncer de mama, trombose, doença cardiovascular e doença do fígado.
  • Os seus exames atuais, incluindo os de mama e os de perfil metabólico.
  • O que você quer: aliviar um sintoma específico, melhorar a qualidade de vida, prevenir problemas futuros, ou tudo isso.

Existem situações em que a terapia hormonal sistêmica não é indicada, e nesses casos há alternativas não hormonais para sintomas específicos. Existem situações em que ela é uma boa opção. E existem muitas situações intermediárias, em que a conversa é longa e a decisão é construída junto. Mulheres que passaram por tratamento oncológico, por exemplo, pedem uma avaliação ainda mais individualizada, e eu falo sobre isso no texto sobre menopausa depois do câncer.

As perguntas que você deve fazer ao seu médico

Uma consulta sobre terapia hormonal deveria ser uma conversa, não uma prescrição ou uma negativa em cinco minutos. Estas são perguntas que valem a pena levar anotadas.

  • No meu caso, os benefícios superam os riscos? Por quê?
  • Que riscos específicos se aplicam a mim, considerando a minha história?
  • Existe alguma alternativa não hormonal para o que eu estou sentindo?
  • Se eu começar, como e com que frequência vamos acompanhar?
  • Por quanto tempo faz sentido usar, e como será a decisão de parar?
  • O que eu devo observar e comunicar durante o tratamento?

Se o médico responder essas perguntas com clareza, você saiu ganhando, independentemente da decisão. Se ele não quiser responder, esse é um dado importante também.

O que eu vejo no consultório

A maior parte das mulheres que chegam até mim com essa dúvida não quer um sim ou um não. Quer entender. Quer saber por que a mãe ouviu uma coisa e a amiga ouviu outra. Quer saber se o medo que carrega tem fundamento no caso dela.

É por isso que a minha consulta é longa e começa pela história. A terapia hormonal é uma das ferramentas que a medicina tem para o climatério. Existem outras, ela não é obrigatória e não é proibida. É uma decisão que merece informação de qualidade e um médico disposto a explicar o raciocínio.

Se você quer ter essa conversa com calma, veja como funciona a consulta.

Perguntas frequentes

Terapia hormonal na menopausa dá câncer?

Não existe uma resposta que sirva para todas as mulheres. O risco depende do tipo de hormônio, da via, da idade em que se começa, do tempo desde a menopausa e da história pessoal e familiar. Por isso a avaliação é sempre individual.

Qual a diferença entre terapia hormonal e reposição hormonal?

Na prática, são usados como sinônimos. O termo terapia hormonal é o preferido pelas sociedades médicas, porque o objetivo não é repor os níveis de antes, e sim tratar sintomas e cuidar da saúde com a menor dose eficaz.

Existe idade certa para começar?

As sociedades médicas falam em uma janela de oportunidade, geralmente nos primeiros anos após a menopausa, em que os benefícios tendem a ser maiores. Mas isso é uma orientação geral, não uma regra para cada mulher.

Posso parar a terapia hormonal de uma vez?

A decisão de parar, e a forma de fazer isso, deve ser conversada com o médico que acompanha você. Parar por conta própria pode trazer de volta os sintomas de forma intensa.

Quem não pode fazer terapia hormonal tem alternativa?

Sim. Existem opções não hormonais para sintomas específicos, como as ondas de calor e o ressecamento vaginal. Um ginecologista dedicado ao climatério pode avaliar quais fazem sentido no seu caso.

Aviso

As informações deste artigo têm caráter educativo e não substituem a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Se você quer entender o que está acontecendo com o seu corpo, o próximo passo é entender como funciona a consulta.

Entender como funciona a consulta
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